Monday, September 23, 2013

Can We Do It? Homonacionalismo e feminismo carcereiro



O Fazendo Gênero 10 usou (e até abusou) de variações da famosa imagem "We can do it!" de Rosie the Riveter em todas suas produções.

Achei isto uma opção interessante, dado a palestra final proferida por Sarah Schulman, que falava do conceito (largamen
te desconhecido no Brasil) de "homonacionalismo" para criticar, justamente, a ideologia de família e nação que está crescendo em certos cantos dos movimentos gays no ocidente.

A imagem de Rosie, de mangas puxadas e braço erguido (que tem ficado viral no Brasil nos últimos anos), é uma das imagens mais icônicas da força da mulher produzidas no último século. Pena que suas articulações às aspirações imperiais dos EUA são pouco lembradas quando a imagem é usada por feministas hoje. "Rosie the Riveter" era uma criação propagandística do governo dos Estado Unidos nos anos '40, usada durante a Segunda Guerra para incentivar a participação das mulheres nas indústrias bélicas daquele país.

A imagem de Rosie é, afinal, um excelente exemplo de um certo tipo de "feminismo nacionalista" (e bélica), muito semelhante ao "homonacionalismo" tão bem criticado por Schulman... Só que esse "feminismo nacionalista" já tem 70 anos de existência enquanto o homonacionalismo mal tem uma década de vida!

Dado esse fato, me parece irônica a sensibilidade que Schulman tem ao homonacionalismo.

O feminismo também tem feito (e ainda faz) seus flertes com o Estado e com Patriotismo - e não só nos dias passados. É bom meditar sobre o fato que o feminismo (ou pelo menos algumas das tendências mais importantes dentro do feminismo) também está se deslocando em direção ao nacionalismo e do aparelho do Estado no atual momento de crise econômica e política global.

Podemos citar, por exemplo, o novo abolicionismo que tem tomado conta de boa parte do feminismo e que aposta na repressão da prostituição pelo aparato policial do Estado, sem tomar em consideração os efeitos prováveis dessa "militarização" da questão em sociedades profundamente travessadas por questões de raça e classe como Brasil e os Estados Unidos. A falta de análise histórica sobre os efeitos do proibicionismo de álcool (nos EUA na década de 20) e das drogas (em quase todo o mundo após da década de '60) parece ser quase absoluta em círculos feministas abolicionistas - particularmente aquelas lideradas por pessoas oriundas das classes mais abastadas, associadas às ideologias tradicionais de colonialismo ocidental.

Outro aspecto dessa "virada em direção ao Estado" tomada por certos feminismos nos últimos anos tem sido sua aceitação acrítica do assim-chamada "luta contra o tráfico humano". Em muitos países, esse tema (que remete em muitas instâncias à retórica nativista e racista da cruzada contra a "escravidão branca" da década de '20) tem sido mobilizado pelo Estado para reprimir às migrações ilegais e irregulares, colocando em perigo as vidas e a liberdade das mesmas mulheres que as políticas anti-tráfico teoricamente veiram auxiliar.

O fato é isto irmxs: vivemos num mundo cada vez mais repressor e conservador, cujos elites parecem cada vez mais aptos a lançar mão de políticas de repressão para manter seu controle. Tanto certas linhas feministas quanto certas tendências LGBT estão sendo tentados a aliar-se com o Estado nestes momentos, pois recursos, empregos e notoriedade podem aparecer para aqueles grupos que aceitam dar certa patina de legitimidade para ações repressoras lançadas em cima de populações suspeitas (quase sempre pobres e não brancas).

Neste momento de crise, é bom lembrar que a liderança de ambos os movimentos ainda continua a ser massivamente oriunda das classes médias e burguesas. Se esses líderes não adotam uma ótica verdadeiramente interseccional, munida por uma crítica ancorada na historia do colonialismo e capitalismo, as soluções alcançadas por estes movimentos hão de beneficiar só uma pequena minoria de pessoas: as que podem pagar por elas.

Bom, abrindo essa contemplação minha, resolvi postar uma inversão queer/humorística da imagem de Rosie, tão empregada pelo FG 10. Essa vem da revista on-line de humor "Cracked", de sua série de "Imagens Famosas Vistas por Outros Ângulos..."

Monday, July 29, 2013

Papa Chico afirma: "Quem sou eu para julgar os gays?"



  




















por Thaddeus

Complete and utter bullshit.

É incrível a força que a Igreja Católica tem nesse país, talvez particularmente entre gente que se afirma ser de esquerda e ateus ou "ex-católicos".

Por exemplo, hoje minha rede social está cheia de gente que está repostando as noticias que o Papa Chico afirmou não ter o poder de julgar os gays.

Aparentemente, isto é uma afirmação "radical" para um membro da Igreja. Pelo menos é isto que vários de meus amigos dizem.

O que é, porém, é a marca de uma certa falta de pensamento crítico entre nós que supostamente apoiam a causa LGBT.

É só ler um pouco da matéria que você logo chega na seguinte afirmação do Chico:

"The problem is not having this orientation. We must be brothers. The problem is lobbying by this orientation, or lobbies of greedy people, political lobbies, Masonic lobbies, so many lobbies. This is the worse problem." [Desculpe pela versão em inglês.]

Ahn, ´tá. "Irmãos", então. O que Sua Santidade está dizendo é o seguinte: "Guarda as bandeiras, Movimento LGBT. Vocês são um 'lobby' e um lobby é desnecessário pq somos todos irmãos. Podem ter certeza que a Igreja vai fazer a coisa certa. Afinal das contas, quando é que a Igreja não protegeu seus irmãos LGBT?"

Meu deus no céu, será que eu sou a única pessoa que vê a absurdidade dessa posição? Sua Santidade está convidando o movimento LGBT a se desmantelar pois a fé cristão é a única coisa necessária para nós viver em paz.

Certo. E a Igreja, Chico? Vai também parar com seus lobbies? Pois sua fé é uma das mais politicamente organizada no planeta. Na última eleição brasileira, vimos o espetáculo de sacerdotes da Igreja orando do púlpito contra a Dilma, que supostamente apoiava o aborto.

Incrível.

E o cara de pau de comparar o suposto "lobby" do LGBT com os lobbies de corporações - corporações, aliás, que o Banco do Vaticano apoia com seu dinheiro - como se o movimento LGBT fosse aliado natural dos poderosos, corruptos e ricos.

Gente, toma cuidado! Esse papa tem tudo para ser o mais cara de pau de todos. Sabe muito bem manipular fatos e a mídia. E o que estamos vendo nesse Brasil pós-JMJ e quanta gente está disposta a jogar fora seus valores e seu senso crítico, só para ver o espetáculo de um Papa carismático que não seja obvia- e abertamente um grande canalha.

Chico não está dizendo NADA radical ao respeito dos gays. Ele está dizendo, em sumo, que os gays devem calar e esperar justiça nas mãos de seus "irmãos" católicos. Como é que alguém, olhando para a história da Igreja Católica, poderia duvidar disto?

E mais uma coisa: o Papa dizer que ele não tem o poder de julgar pessoas não é radical. É apenas uma afirmação da fé cristão. Afinal das contas, é supostamente o deus que julgue, neh? Chico não está dizendo absolutamente nada aqui que é radical ou que deve ser aplaudido.


Monday, June 24, 2013

Raízes, "astroturf" e o novo ambiente político do ativismo no Brasil



Um novo termo lexical precisa ser traduzido para português: "astroturf movement".

"Astroturf" é o gramado artificial que tem nos estádios de futebol nos EUA. Quando os americanos falam em "movimentos de raiz", falam em "grassroots movements". Ou seja: "Movimentos [que crescem] dos raízes do gramado." Portanto, um "movimento astroturf" é um movimento de raiz falso, artificialmente criado e mantido.

Obama e seus oponentes foram acusados de utilizarem tais movimentos em ambas as eleições de 2008 e 2012. E, em 2010, foi revelado que o National Security Agency , a CIA e o FBI estavam mantendo seus próprios grupos "astrotruf" na internet.

Em 2008, quase nenhum brasileiro sabia quem era Anônimo. Lembro tentando explicar o fenômeno para meus colegas na ABA e na BRASA daquele ano e todo mundo me olhando como se eu fosse maluco. O Brasil, a meu ver, está uns 2-4 anos atrás da crista da onda nesses desenvolvimentos. Nossos primeiros grupos astroturf só sugiram na última eleição presidencial e, mesmo assim, não impactaram na consciência pública de maneira decisiva.

O que estamos vendo agora, nas teorias conspiratórias que cercam o atual crise, é a percepção, em massa, que a internet de fato abriga todos os tipos e todos os movimentos. É bastante difícil para alguns de meus colegas - particularmente aqueles que tem orientação nacionalista e/ou socialista - entender como essa nova meio ambiente política funciona. Encarando o que lhes parecem como caos, eles recuam em favor dos antigas teorias políticas e sociais de sua criação.

O fato, porém, é que quase todo mundo está fazendo isto no Brasil hoje: direita, esquerda e os apolíticos. É, enfim, uma espécie de reação fundamentalista intelectual: em momentos de crise, agarra-se mais ainda nas dogmas de sempre. Portanto, tem gente achando que tudo isto é complô da CIA... Que é orquestrada pelos bancos multinacionais... Que é tudo complô da aula reacionária das forças de segurança e as milícias... que é, de fato, uma conspiração bem pensada do Comando Vermelho.

Enfim, conhecendo-se a posição política "tradicional" (quero dizer, na tradição da política dos últimos 40 anos) de um brasileiro hoje, você conhece qual vai ser a sua teoria conspiratorial sobre as manifestções.

O que ninguém quer falar é que tudo isto pode ser uma simples efeito colateral da democratização dos meios de comunicação em momento de crise política. Estamos a frente de um novo ambiente político, proporcionado pela internet e pela irrelevância crescente da mídia tradicional. Não temos mais nenhuma "narrativa nacional" coesa sobre os acontecimentos políticos do dia-a-dia e, nesta situação, conflitos localizados e/ou setoriais podem explodir repentinamente em movimentos populares de massa, dado certas precondições.

A Revolta dos 0.20 Centavos, como a Revolta da Vacina no século passado, prefigura de forma inepta e imperfeita as formas políticas urbanas que se instalariam durante o novo século . As formas antigas de fazer a política perderão, cada vez mais, sua utilidade.

Os grupos que aprendem mais rapidamente a se adaptar a esse novo meio ambiente político terão uma vantagem fulminante nos próximos vinte anos.

Me preocupo que o time com qual estou associado - a de direitos humanos, tolerância, e de uma democracia que pensa em termos sociais - está mais preocupado com 1964 do que com 2014. Em vez de aprender como podemos operar nesse novo ambiente, estão ocupados em lamentar a eliminação do velho.

Sunday, June 23, 2013

Golpe...? Ahn, 'tá!

Ilustração por André Dahmer, usada aqui sem permissão. Meu uso não representa desafio de seus direitos autorais. As opiniões expressas abaixo não são da responsabilidade de André, portanto, não enche o saco dele se você discorda.



por Thaddeus

Marília Moschkovich tem virado febre entre alguns amigos meus, escrevendo textos que nos alertam para a possibilidade de um "golpe" no Brasil em função das manifestações atuais. Seu missivo mais recente pode ser visto aqui: https://medium.com/primavera-brasileira/a321b6486c20

O texto abaixo é minha resposta. Serve para responder a qualquer um que acha que um golpe está sendo organizado pelos poderes ocultos da ultra-direita brasileira...




Como diz Jack o Estripador, vamos por partes, olhando para cada ponto que Marilia levanta:

1) Por que dariam um “golpe”, que golpe seria esse e quem seria responsável?

Marilia admite que não tem porque fazer um golpe, que ela mesma não consegue vislumbrar os agentes políticos que faria o tal do golpe, nem qual seria suas propostas. Coloca como “prova”  de que “algo está sendo montando” barulhos e páginas de internet que são feitas por organizações e pessoas anônimas.

Cara colega, você – como eu – somos professores federais. O que é que falamos para nossos alunos, sempre, sobre a internet? Que não é uma fonte confiável, sendo que qualquer idiota pode botar o que quiser nele...? Uma página no Facebook feita por deus-sabe-quem não é prova alguma da existência de uma conspiração golpista.

Tem gente que se afirma ser militar dizendo que está pronto para “fazer a transição”? Tem crentes da ultra-direita apelando por um estado religioso? E tudo isto no Facebook?! Meu deus, colega! Sabe o que você descobriu? Que o Brasil é um país pluralista em termos de seus grupos políticos!

Sei que é difícil acreditar, sendo que você, como eu, estamos inseridos no sistema universitário, mas existem direitistas no Brasil. Existem fascistas! E alguns deles sabem fazer páginas de FB e montar blogs!

O problema não é que você é paranóica, Marilia: é que você vê padrões onde tem só barulho. Isto é um problema comum entre nos seres humanos, dotados como somos de nossa capacidade superorgânica de manipular símbolos abstratos. É isto que faz as pessoas religiosas veêm o Jesus numa mancha de mofo na parede. Aparentemente, é uma capacidade que também faz sociólogas vislumbrar golpes na barulheira da mídia social...

Mas, ahahn! Não é propriamente de um “golpe de estado” que você está falando e sim desse tal de “golpe de opinião”! Bobo somos nós, então, que entendiam suas palavras na luz do conceito comum da palavra “golpe”. Vamos, então, fingir que “golpe de estado” e “golpe de opinião” são sinônimos, ‘tá? Então quem está preparando esse golpe?

2) Quem participa do poder público no Brasil?
Uau. Então esse tal do “golpe de opinião” foi planejado, em suas raizes, por Dom Pedro I em 1824? É isto a tese que você está sustentando?

Marília, apesar de ser gringo, tenho 25 anos no Brasil, duas diplomas brasileiras em antropologia social e uma norte-americana com especialização na sociologia e na história brasileira. Sei tão bem quanto você – e quanto à maioria de meus colegas que leiam suas missivas – que a história brasileira é fundada numa base escravocrata e profundamente injusta. Também sei que essa base continua vivíssima nos dias de hoje, como quase todos os maiores pensadores brasileiros das ciências sociais têm enfatizado.

Mas tudo isto indica que temos que ter bastante cautela quando utilizamos essa história para criar nossas hipóteses sócio-políticas sobre o Brasil de hoje. A história brasileira é complicada, não é unilinear e CERTAMENTE não é o resumo  da trajetória de uma elite unificada, monolítica, que consegue arranjar tudo de acordo com seu bel-prazer, assim e tal, no decorrer de 500 anos sem modificações significantes.

Vamos olhar para só uma de suas afirmações principais ao respeito dessa história.

Você nos lembra que o votou foi condicionando à alfabetização no Brasil até 1985. E é verdade: isto foi o caso. Mas você sabe – ou deve saber – que isto quase nunca foi empecilho algum na votação no Brasil, sendo que os coronéis da zona rural e os seus primos políticos nas cidades montaram enormes máquinas políticas no decorrer do século XX calcadas no voto popular.  A “democracia” brasileira, diferente da americana, nunca foi efetivamente condicionada pela exclusão do voto: foi formulada pela obrigatoriedade do voto.

Agora, me diga uma coisa: se a elite brasileira é tão unificada e monolítica assim, porque, então, essa grande preocupação como o voto, ao ponto de até obrigar seu uso? Será que é porque a ilusão de democracia é absolutamente importante nas brigas internas dessa classe dominante? E, se isto for o caso, então o que devemos estar tentando enxergar nessa atual crise de ”golpe de opinião” é o seguinte: qual facção dessa classe dominante pensa que só pode ganhar pela baderneira e não pelo voto popular?

E noto que você ainda não nos tem informado sobre quem deveria ser esse grupo.

Vamos lá, então, para....
3) Educação e educação política
A educação deixa as pessoas burras e despolitizadas no Brasil, sei. É justamente por essa razão que socialistas laicos como eu e você ganhamos nosso pão de todo dia como professores, neh?

Mas, OK: concordo. O sistema de educação é, em geral, terrível e cria pessoas despolitizadas. Certo. Onde é, então, que essas pessoas devem se politizar, de acordo com Marx, se não na atividade PRÁTICA, nas ruas, assembléias, conselhos etc. e tal?

 Marx seria a primeira pessoa a advertir que numa situação como essa, a única salvação é através da educação prática. Mas como é que podemos educar, praticamente, se vamos deixar as ruas para os arruaceiros e a gente da direita? Não devemos estar lá nas ruas, educando e divulgando nossas mensagens e propostas, em vez de estar plantado frente ao Facebook, lendo e escrevendo manifestos?

4) Quanto mais gente, menos corrupção
Você REALMENTE acha que “A corrupção nada mais é do que o uso do aparelho do Estado em benefício próprio”? E quem pagou para sua educação e a minha não foi... o Estado brasileiro? Não tiramos algum benefício disso? Ahn, essa não é a mesma coisa? Então podemos hipotetizar que “estado”, no Brasil ou em qualquer outro país, não é apenas uma máquina simples que reproduz fielmente as interesses de uma elite dominante? Podemos concordar que – mesmo que isto seja a operação mais fundamental do estado (afinal das contas, ainda sou marxiano, se não marxista) – na operação cotidiano do Estado muitas contradições e brechas acabam sendo construídas e que nem todas essas operam seguindo a lógica da dominação?

O problema é isto: quanto mais gente MAIS corrupção, Marília. É justamente quando uma série de agentes diferentes, com visões divergentes, entram nos corredores de poder que meios extra-legais acabam sendo construídos para forjar alianças políticas. O escândalo do Mensalão  não aconteceu por causa de uma tentativa de “manter as pessoas burras e afastadas do poder”: aconteceu porque o PT precisava criar meios para governar a cambada de interesses diversas e excludentes que formava sua base eleitoral no Congresso.

A corrupção SEMPRE vai existir em uma democracia justamente por causa da grande variedade de interesses que acabam sendo expressas no parlamento, mesmo se essas são quase todas expressões da classe dominante. Numa ditadura ou num estado fascista, não existe a corrupção justamente porque as coisas que classificamos como “ilegais” na democracia não são ilegais  nesses tipos de governo: ou você é um amigo do poder e pode fazer tudo, ou você não é nada.

Numa democracia saudável, lute-se contra a corrupção, tentando impor regras no jogo de interesses políticos. Presumo que quando chegamos à utopia de um estado socialista, a corrupção vai ser ainda maior e a vigilância contra ela vai ter que ser também maior. A questão posta pela democracia – seja em suas versões liberais ou socialistas – é “O que devemos fazer com a res pública?” Essa pergunta implica-se a possibilidade da corrupção.

Então não, não acho legal você tentar comprovar que, num sistema mais justo, não haverá a corrupção e que a corrupção é causada, fatalmente, pelos interesses da elite.  É uma mentira. A corrupção é nefasta, mas é tanto um componente de democracia (seja que for) quanto as doenças venéreas são componentes de puteiros. Numa democracia – ou num puteiro – saudável, não finge-se que essas coisas são oriundas de “pessoas do mal”. Reconhecemos que fazem parte do negócio e tomamos as medidas profiláticas necessárias.

5) Mas, e o golpe?
Pois é, Marília. Acho interessante esse sobrevôo  que você fez pela história brasileira para nos lembrar que moramos num país injusto, governado por uma classe dominante que não é nossa amiguinha.

OK. E o golpe? QUEM vai fazer?

Ou seja, você pode, usando todos seus dotes marxistas, indicar para nós qual segmento da classe dominante pensa que precisa usar a força em vez das urnas para impor sua vontade?

Vamos ver...

Ahn, então os interesses da pequena elite que sempre dirigiu o Brasil estão sendo atendidos?

E os EUA – o grande bicho papão da imaginação nacionalista – também não tem interesse algum em derrubar a Dilma?

Então....

6) Que tipo de “golpe” seria possível?

Deixo ver se eu entendi bem: você afirma que não tem nenhuma razão por golpe algum, seguindo a lógica marxista, mas acho que há de ter golpe porque você viu alguns reaças fazendo barulho na internet?

É isto, Marília?

Sua única “prova” de que um golpe está sendo planejado é, enfim, tautológica? Um golpe é possível porque há de ter um golpe? Então para poder ter “golpe”, vamos definir o processo normativo de uma democracia burguesa pós-moderna (a manipulação midiática para que a opinião pública aceite e defenda a diminuição de direitos políticos) como “golpe”?

É isto?
Minha amiga, vai ler Chomsky,  “Manufacturing Consent”: isto é o funcionamento NORMATIVO do estado burguês na época da mídia em massa. Encontre-se uma crise agora esse funcionamento somente porque os meios de comunicação temporariamente democratizaram e massificaram-se com a entrada da internet. Um confronto pequeno, então, teve a capacidade de incendiar e massificar uma série de ansiedades políticas que, outra hora, dificilmente ganhariam espaço na opinião pública.

Isto não é golpe: é crise. E a resposta adequada para essa crise não é a construção de teorias de conspiração.

Saturday, June 8, 2013

O Mal Estar da Prostituição

 por Ana Paula Silva

Uma campanha do Ministério da Saúde sobre a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis voltadas para as prostitutas em comemoração ao Dia Internacional das Prostitutas causou celeuma e polêmica. Todos os seus idealizadores foram demitidos ou constrangidos a deixarem o cargo por pressão da bancada evangélica. Acredito que esta primeira ação é esperada, apesar de inaceitável, por parte do governo: desqualificar questões de saúde pública para valorizar os preconceitos e achismos dos defensores da bíblia.

No entanto, um cartaz em particular, provocou reações adversas não apenas em evangélicos, mas em pessoas que se entendem como defensoras de direitos e contra qualquer forma de discriminação. A imagem de uma mulher sorrindo com a frase "Eu sou feliz sendo prostituta" tem sofrido restrições e está sendo acusada de "glorificar", "glamourizar" uma profissão que, segundo estas pessoas, "objetifica", "mercantiliza", trata a mulher como "coisa" e, portanto, uma carreira não digna que qualquer pessoa possa querer na vida.

Frases como "sou contra a prostituição, mas a favor das prostitutas", "este mercado pode ser bom financeiramente para estas mulheres, mas elas precisam ter oportunidades melhores na vida", "como alguém pode ser feliz, fazendo um trabalho tão degradante e imoral como estes?", "não podemos deixar que mais meninas sigam este caminho. Elas precisam de uma vida melhor."

Assim como outros pesquisadores, tenho estudado seriamente o mercado do sexo faz algum tempo e assim, como eles, tenho percebido que as frases ditas acima, são extremamente carregadas de preconceitos que ajudam a legitimar ainda mais o estigma que este grupo social vem sofrendo ao longo de décadas, pois acreditam que a manutenção de um mercado semi-legal, não-regulamentado é a solução para extirpar um "mal" da sociedade. Não adianta achar que ser a favor das prostitutas, mas contra a prostituição garantirá direitos a estas pessoas. Como legalizar a prática e criminalizar o mercado? É minimamente uma incoerência e não resolve os problemas e estigmas que este grupo sofre.

Mas a questão persiste: por que uma mulher, líder das prostitutas, num cartaz dizendo "sou feliz sendo prostituta" causa tanto mal-estar até mesmo nas pessoas que se autodenominam "libertárias" e a favor da construção de "igualdades"?

Acredito que, infelizmente, ser prostituta foi tão estigmatizado (e a ciência colaborou enormemente para isto) que não se consegue vislumbrar que as pessoas que vivem disso  podem ser agentes e  cidadãs. Aprendemos que alguém que é  prostituta por si só está numa condição de inferioridade tão grande que todas as suas capacidades de discernir sobre o que é certo ou errado foram retiradas. Por isto continuam lá. De repente ter alguém fora desse padrão incomoda e parece estar "glamourizando" uma função que sabemos ser de antemão degradante.

Sinceramente o que tenho percebido, e que toda esta celeuma causou, inclusive, entre meus colegas de profissão e militância, é que os eficazes instrumentos de regulação sobre o sexo ainda perduram e se acredita piamente na naturalização do que seria sexo "ruim" e sexo "bom". De que deve existir uma "normalização" das práticas sexuais e as "aberrações" devem ser minimamente controladas.

O que afirmo se torna interessante quando pensamos em quem são os alvos desta "normalização": as mulheres. Nenhuma delas pode em sã consciência decidir ser puta e, independentemente, de sua função serem felizes. As mulheres não podem escolher o que fazer com o seu corpo, em relação ao sexo, particularmente se  não é entendido como "normativo".  "Alugar serviços sexuais" há de ser um vilipendiamento do seu corpo, torná-lo mercadoria exposta, mesmo que seja de sua escolha.

O campo da prostituição é diverso, complexo e não podemos afirmar que existe um tipo de prostituição. Existem muitos tipos e pessoas envolvidas de todas as classes e cores. É uma simplificação acreditar que só pobre se prostitui, no entanto, é interessante refletir sobre as várias trocas afetivo- sexuais que são vistas e entendidas como "prostituição". Determinadas trocas se envolvidas por pessoas  de classes sociais mais abastadas podem ser entendidas como "namoro". São até vislumbrados como relacionamentos de "interesse", mas não merecem as mesmas atenções das forças de segurança que prendem mulheres e violam seus direitos porque são taxadas de "putas".

Enfim, o que tenho estudado demonstra que a categoria "puta" é acusatória e é aplicada quando um certo tipo de mulher de classe e cor está envolvida e por isto, MERECE apanhar ou ser "controlada" e incentivada a procurar empregos "dignos", mesmo que boa parte delas tenha fugido dos entendidos empregos "dignos" que as pessoas teimam em achar que elas devem desempenhar.

Contudo, afirmar isto, é incentivar, glamourizar, glorificar a prostituição, como tenho lido em posts aqui no FB. Desde quando afirmar que estas pessoas precisam e devem ter direitos reconhecidos é glorificar a prostituição?

Então concordamos que para estas pessoas serem vistas como cidadãs elas precisam estar caídas na sarjeta, decadentes e reconhecerem que foram  meninas más por escolherem uma profissão aviltante? Mantendo a prostituição na semi-legalidade é a solução?

Enfim, acredito que muito ainda se precisa pensar sobre isto, mas o que me choca é o nao reconhecimento de pesquisas que já falam isto muito antes da minha entrada neste campo e ainda ouvir comentários de que não existem pesquisas sérias sobre o tema. Amigxs existem pesquisas sérias no Brasil e em outros lugares no mundo sobre o tema, o problema  é que não compactuam com os preconceitos vigentes e as soluções  abolicionistas para acabar com este "mal".

Tornar a prostituição mais ilegal e criminalizada não resolve e ajudamos o Estado a exercer controle sobre as populações  enxergadas como "indesejáveis" e, portanto, passíveis de  controles e restrições quanto aos seus direitos.

Este assunto me tocou profundamente e acho que precisamos ampliar o debate. É urgente e premente. Desculpem o longo post.