Tuesday, January 28, 2014

Lembrando Pete Seeger, 1919 - 2014



Por Thaddeus Gregory Blanchette 


Peter Seeger ergeu-se por 75 anos em cima da cena de música folclórica como um grande pinheiro de madeira vermelha. Andou com Woody Guthrie na década de ’40, desafiou Joe McCarthy nos anos ’50 e marchou com Dr. Martin Luther King nos ’60s. Suas músicas serão cantadas em todos os lugares onde o povo luta para seus direitos. We shall overcome.


Eu tive a enorme boa fortuna de ter encontrado Pete Seeger três vezes na minha vida.

A primeira vez foi em 1971, quando eu tinha três anos de idade. Minha mãe era aficionada de música folk norte-americana e me levou, junto com sua irmã e meus primos, a um pequeno festival onde Pete tocava ao lado de Peter, Paul & Mary. A memória dele cantando é uma das mais antigas que tenho. Após o show, fomos nós apresentar aos artistas e me lembro olhando para o rosto de Pete e pensando, “Que velhinho simpático!” Sua bondade e presença me marcaram profundamente, mesmo naquela tenra idade. Quando Pete te olhava, você sabia (como Harry Chapin comentaria mais tarde em sua música em homenagem ao Seeger, O Velho Folclorista (The Old Folkie)) que ele estava realmente presente. É uma sensação que tenho experimentado com poucas pessoas.

Eu nada sabia, na época, da história do homem.

O fato que Seeger cantava de graça para uma banda de alunos universitários e jovens era o resultado da cassação profissional que ele tinha sofrido por ter recusado testemunhar contra seus amigos e colegas do movimento comunista durante a caça de bruxas liderada pelo Senador McCarthy. Seeger, que tinha sido membro do Young Communist League em sua juventude, foi condenado a dez anos de prisão por esse “ultraje”, num país que se considerava (e ainda se entende) como a mais perfeita flor da liberdade e democracia.

A condenação foi revista, mas Pete foi colocado na lista negra das gravadoras, rádios e televisões dos EUA. Por causa disto, nunca lucrou com a explosão de popularidade da música folk nos anos 1960. Hoje, centenas de milhões de seres humanos conhecem músicas como “If I had a Hammer”,  “Turn, Turn, Turn”,“Where Have All the Flowers Gone?” e “We Shall Overcome”  graças a Pete, mas poucos conhecem o nome do homem que as colocou no repertório folk norte-americano. Bob Dylan, Joan Baez, Marlene Dietrich, The Kingston Trio e vários outros artistas faziam sucesso e ganhavam milhões cantando as músicas do Seeger. Pete, que vivia numa cabana que ele mesmo construiu, em cima do Rio Hudson no estado de Nova Iorque, pouco se importava com que outras pessoas poderiam considerar uma injustiça. Para ele, a música sempre foi a coisa mais importante.

Nascido em 1919 numa família tradicional calvinistade Nova Inglaterra, Pete Seeger seguia no ramo da família quando decidiu trilhar uma carreira dedicada à música e poesia. Seu pai, Charles Louis Seeger,  foi um dos fundadores de etnomusicologia – carreira ainda seguido pelo sobrinho de Pete, o antropólogo Anthony Seeger. Sua mãe, Constance de Clyver Edson, ensinava música na prestigiosa Julliard School enquanto sua madrasta, Ruth Crawford Seeger, é hoje considerada uma das compositoras modernistas mais importantes do século XX. Seu tio, Alan Seeger, foi um dos mais famosos poetas americanos da Primeira Guerra. (Eu precisava decorar seu poema, “I have a renedvous with death” no colégio).

Seeger estudava no Harvard, mas deixou a universidade para se dedicar à musica e à política. Envolvia-se profundamente com as lutas para justiça e democracia da década de 1940, formando parcerias com tais legendas da música popular americana como Woody Guthrie, Huddy Leadbelly e Lee Hayes. Ajudou fundar The Almanac Singers e The Weavers, dois dos grupos mais influentes da música folk dos EUA. Durante a Segunda Guerra, Seeger (assim como meu avô) treinou para ser um mecânico de aviões, mas (diferente de meu avô) gastou a maior parte de seu tempo cantando para as tropas. Existe uma foto maravilhosa dele tocando para uma platéia que incluía a Primeira Dama Eleanor Roosevelt  numa festa racialmente mista no Dia dos Namorados em 1944:


























Nos dias de Obama, tal coisa pode parecer absolutamente normal. Em 1944, porém, a segregação racial e as leis anti-miscigenação ainda vigoravam em 13 estados americanos. Pete conhecia pessoalmente muito bem o que isto queria dizer: casou-se com a japonesa-americana Toshi Aline Ohta em 1943, um ano em que os americanos de descendência nipônica apodreciam em campos de concentração como resultado da política racista de “segurança” inaugurada pelo governo federal após o ataque do Império do Japão ao Pearl Harbor. (A história da família de Toshi é tão colorida quanto a do Pete: seu avô tinha sido tradutor de textos marxistas no Japão, fato que acabou no exílio de seu filho, o pai de Toshi.)

Era justamente essa incapacidade de se calar frente à injustiça – e particularmente às injustiças raciais – que colocou Seeger e seus colegas na mira de Senador McCarthy na década de 1950. Em 1953, quando as músicas “comunistas” dos Weavers foram proibidas nos rádios americanos, Pete tinha 34 anos de idade e já estava avançada em sua carreira. Sua voz não voltaria às transmissoras até mais ou menos a mesma época em que eu o conheci pela primeira vez.

Em 1971, quando o encontrei pela primeira vez, Pete Seeger tinha 52 anos de idade e ganhava a vida tocando em universidades, cafés e pequenos festivais. Já era considerado por todos uma éminence grise da música folk norte-americana, fato retratado na música a sua homenagem que Harry Chapin gravou em 1979
 
Ele é o homem com o banjo e a guitarra de 12 cordas
Cantando as músicas que nos contam quem nós somos.
Quando você olha em seus olhos
Você sabe que alguém está lá.

Faz 40 anos ele está na luta
Carregando o sonho pois o Woody já se foi
Ele é a última voz cantando aquela música “Bound for Glory”
E se você não o conheça, é bom conferir 
Ele é o homem que botou o significado nos livros de música
O mundo pode estar cansado, mas Pete continua forte.



Ironicamente, Harry Chapin morreria dois anos mais tarde, num acidente de trânsito. Pete, porém, ainda tinha 33 anos de vida para sua frente.



Durante minha infância e juventude, as músicas de Pete Seeger formaram uma trilha sonora constante, tocando em contraponto ao Hino Nacional. Eram as músicas que cantávamos nos acampamentos, nos protestos, nos bares e nas ruas. Foi o Pete que me ensinou a cantar “Guantanamera” e me apresentou a obra de José Marti.   Foi Pete que me catequizava  sobre os sindicatos.

Cada vez que Seeger passava pelo Wisconsin, geralmente acompanhado pelo filho de Woody, Arlo Guthrie, eu fazia questão de ver seus shows ou pelo menos ouvi-los no rádio universitário da minha cidade.  Mas só foi em 1986 que eu me encontrei com ele novamente.



Naquele ano, eu participava de uma marcha transcontinental que partia de Los Angeles, rumo ao Washington D.C., militando em favor do fim dos testes nucleares. Levava 8 meses, andando 20 quilômetros por dia, em sol, chuva e neve. Pete alcançava a Marcha em Iowa. Ele andava com a gente, tocava para nós nas paradas, comia nossa comida terrível sem reclamar, cagava em nossos banheiros químicos e, ainda assim, no final do dia, fazia show beneficente para arcar fundos para a Marcha.


Tudo com 67 anos de idade.

Um amigo meu descrevia com precisão uma típica interação com Pete na Marcha:


Eu tinha andando quilômetros na chuva, estava insuportavelmente frio e eu estava de saco cheio. Finalmente cheguei no ponto de almoço da Marcha e a única coisa que tinha preparada lá era umas fatias de pão duro e uns cachorros quentes, todos quebrados. Neste exato momento, quando eu ficava lá lamentando em silêncio, chegava Pete Seeger. Sem piscar os olhos, ele pegou uma fatia de pão, botou uma salsicha no meio, e saiu andando, rindo com alguns outros marchadores, para tocar seu banjo embaixo das arvores. 




































Seeger voltava a acompanhar a Marcha em várias ocasiões. Quando entramos em Nova Iorque, fazia questão de navegar seu saveiro, o Clearwater, embaixo da ponte George Washington enquanto passávamos por cima. Também fez um show de despedida para a gente em D.C.















O Clearwater acompanhando a Marcha no Hudson, 1986

A terceira vez que encontrei Pete foi o mais triste, pelo menos para mim.

Na década de ’90, o governo americano aparentemente tentou reabilitar Seeger como uma espécie de tesouro nacional. Em função disto, ele fez uma turnê pelo Brasil, patrocinada pela Embaixada dos EUA. Lembro que ele foi ao programa do Jô Soares, que o tratou como realeza visitante. Jô fazia questão de informar os telespectadores sobre a importância do Pete e avisou ao Brasil inteiro que seu show no Memorial da América Latina seria de entrada franca. Fez de tudo para alavancar interesse neste homem, tão importante para a música popular americana e, no entanto, quase desconhecido no Brasil.

Na noite seguinte eu, Katia Campos Mendes e nosso filho Leonardo fomos para o show no auditório cavernoso do Memorial... e descobrimos que éramos três entre os somente 30 espectadores que vieram assistir Pete.

Pete levava tudo numa boa e fez um show íntimo, cobrando pessoalmente todos os membros da platéia para que eles aprendessem a cantar as músicas. “Aqui não é uma aula de ethnomusicologia,” brincava.  “Hoje, vocês vão cantar!” Depois, ele reunia todos no camarim  e bateu papo conosco  por mais de uma hora.

Nesta ocasião, Pete estava acompanhado por seu neto, Tao Rodriguez-Seeger, que passou vários anos de sua infância em Nicaragua e sabia cantar em espanhol. Tao e Pete, cientes do crescente influência hispano-falante nos EUA, estavam incorporando cada vez mais músicas folk naquela língua a suas performances. Então foi assim, nos meus 28 anos, que Pete e Tao me ensinaram a cantar “De Colores” e me apresentaram à obra do cantor argentino León Gieco.

Pete nunca parou de levar a música do mundo aos EUA e vice versa.
Pete também nunca parou em seu ativismo. Lutou 40 anos para tentar despoluir o Rio Hudson. Militou contra todas as guerras americanas da segunda metade do século XX. Foi oponente feroz do racismo, em todas suas manifestações. Em 2011, com 92 anos de idade, ele se aliou ao movimento Occupy em Nova Iorque, marchando de Broadway para Columbia Circle com Tao, Arlo Guthrie e muitos outros músicos, mais milhares de apoiadores, num evento apelido posteriormente de  “A Marcha Pete Seeger”:


























 
Em 27 de janeiro 2014, o velho folclorista finalmente se foi, deixando um vazio irreparável nos corações de todos que conheciam o homem e sua música.

Sou cínico e cético com respeito a meu país de origem. Mas nos momentos mais sombrios, lembro que embora os EUA são capazes de fazerem grandes injustiças e maldades no mundo, também podem criar pessoas como Pete Seeger e toda sua maravilhosa família. Sua música e seus pensamentos ficarão para catequizar gerações futuras com suas mensagens de esperança, amor, justiça e luta. Mas nos que tivemos a boa fortuna por conhecer Pete Seeger, mesmo que brevemente, sempre sentiremos a falta desse melhor exemplar de um verdadeiro humanitário.

Coda
Para fechar essa breve homenagem ao Pete, e ilustrar bem seu alcance mundial, segue uma música que ele gravou no ano em que eu o conheci pela primeira vez, “Rainbow Race” (“Raça Arcoiris”). A canção virou uma música infantil popular em Noruega. Em 2011, 40.000 noruegueses se juntaram no centro de Oslo para marcar seu repúdio aos atos do racista Anders Berhring Breivik, que matou 77 pessoas num acampamento. Breivik odiava a música, que ele taxou como “lavagem cerebral socialista”. O prefeito de Oslo classificou o eventocomo “uma verdadeira manifestação da cultura norueguesa”.


Rainbow Race (Raça Arco-íris)
Pete Seeger, 1971

Um céu azul acima de nós
Um mar tocando todas nossas praias
Uma terra tão verde e redonda
Quem podia pedir mais?
E pelo fato que te amo
Tentarei mais uma vez
Para demonstrar para minha raça arco-íris
Que é cedo demais para morrer.

Tem gente que quer ser que nem o avestruz,
E enterrar suas cabeças na areia.
Tem gente que espera que os sonhos de plástico
Podem desgarrar todas aquelas mãos cobiçosas.
Alguns esperam tomar o caminho fácil:
Veneno e bombas. Eles acham que necessitamos disto.
Mas não tem como matar todos os descrentes
Não tem um caminho curto para a liberdade.

Vai contar para todas as criancinhas.
E todos os mães e pais, também.
Essa é nossa última chance a apreender compartilhar
O que foi nos dado.






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