Monday, January 16, 2012

O Caso Big Lixo Brasil 12

...por Ana Paula da Silva

É com grande horror e espanto que estou acompanhando no que se tornou a grande polêmica  do momento: o caso em que, supostamente, um integrante masculino abusou de uma "sister" debaixo dum edredon.

Bom, sou daquelas pessoas que compartilham a opinião que reality show não passa de um lixo eletrônico, da qual me recuso a dar audiência. Mas também concordo que não se pode condenar quem assista e ache bom. O conceito do que é bom ou ruim é bastante relativo. Pode soar como um clichê esta frase, mas acredito que faça todo sentido relativizar, em meio ao absurdo que se transformou esta polêmica.

Soube do suposto estupro pelas as redes sociais e, apesar de não assistir ao programa, acessei o vídeo em que os mais exaltados afirmam ter evidencias de um estupro, sem que ainda tenha havido, uma análise técnica das imagens. É o seu olho e sua imaginação funcionando naqueles sete minutos. Confesso que mal consegui distinguir quem era quem no vídeo, já que as imagens foram captadas no escuro embaixo de um grosso cobertor. Bom, os mais radicais podem justificar que minha internet não é boa e a imagem que eu recebi estava turvada. Pode ser. Todos os que estão alegando que de fato houve estupro aparentemente tenham visto algo que eu mal consegui distinguir acontecendo entre um homem e uma mulher naquela cama.

O que me espanta e me horroriza de tudo isto – e acredito que esta atitude deva ser motivo de punição para a Rede Globo – é sugerir que tal cena seja exposta na TV, mesmo que em canal fechado. Agora o que me espanta mais ainda são as opiniões diversas das pessoas. Desde os machistas (“Ela bebeu, queria o que?”), até os que já defendem prisão e – porque não? – o linchamento do “estuprador” Daniel. Parece que até estamos relembrando os velhos tempos em que homens negros eram acusados de estupradores de mulheres brancas e, portanto, mereciam serem linchados baseados só e unicamente na acusação e não em provas concretas.

Toquei no que acredito ser um drama construído neste evento. Um homem negro, jovem, modelo e uma mulher branca jovem, modelo estão neste programa em busca de fama e sucesso instantâneo e aceitam se transformar nos próximos meses em bichos enclausurados, onde recebem comida e boa vida em troca de fazerem graça a um público ávido em ver situações grotescas e de mau gosto em que se envolvam. Enfim, reality shows se transformaram mundo afora num sucesso de público e no Brasil não é diferente.

Já que sabemos – ou devemos saber – estes programas sofrem pesadas interferências na hora em que são editados. Ler esta reportagem, por exemplo, que discute alguns dos truques mais comumente utilizados para dar mais emoção a esses shows....

Devemos pensar, particularmente, em  como os editores  constroem estereótipos dentro dos quais encaixam os participantes. Pelo que andei apurando, Daniel já estava sendo colocado pelos editores do BBB como o garanhão e pegador, quase um tarado que corria atrás das mulheres da casa. Você não precisa saber muito sobre a história de raça e gênero em nosso país para entender porque ele foi personificado assim. Outra menina no show já teria comentado que Daniel a bolinou em outro momento. Ou seja, nada mais natural do que alimentar o imaginário que existe sobre homens negros: máquinas sexuais incontroláveis que são capazes de transar até com uma mulher aparentemente inerte, bêbada, depois de uma festa regada a álcool. Quem acha que o conteúdo “raça” deva ser retirado da análise deste drama realmente não entende como o racismo funciona neste país.

A situação deve ser analisada de uma maneira um pouco mais complexa do que os sete minutos de vídeo editado pode mostrar. Simplesmente apontar vítimas e algozes neste caso infeliz, baseado só e unicamente num vídeo que já tem passado pelas mãos de editores cuja principal tarefa é fazer o público  delirar é, no mínimo, prematuro. Acredito na irresponsabilidade da emissora em explorar uma situação destas, mas discordo daqueles que tratam o caso como se fosse absolutamente factual, uma situação realista em que estivéssemos assistindo uma festa com pessoas “normais”, numa situação normal, em que uma menina é embriagada e depois sofreu abuso sexual. Há que se ter cuidado sobre os fatos, pelo menos até que haja uma análise técnica de TODAS as imagens captadas pelas sempre presentes câmeras da casa BBB.

Não houve sequer uma análise pericial do vídeo para se saber o quanto de edição e montagem há nele.  Neste momento, as pessoas estão assistindo e acusando baseado numa imagem editada da Rede Globo – emissora que tem longa história em manipular  a opinião pública através de imagens adulteradas e, as vezes, francamente falsas. Estou impressionada com a repercussão que essas imagens têm feito nas redes sociais e com o alto grau de veemência que está sendo direcionado a Daniel sem ainda sabermos nem a metade dos fatos do caso. Se  Daniel for revelado como estuprador, então acho que deve ser punido. Mas conhecendo bem a história da histeria social em torno da sexualidade masculina e negra, acho que devemos insistir numa apuração total e competente dos fatos do caso antes de gritar a favor pelo linchamento do rapaz.

Outra coisa que me assusta é a insistência de que  Monique há de se reconhecer como vítima de estupro. A mulher não teve domínio sobre seu corpo antes do evento, durante o evento e agora também não tem direito sobre ele depois. Parece que seu corpo agora pertence a um coro de pessoas que só conhece a situação por via de internet e que querem acreditar piamente que um abuso aconteceu e aos “machistas” que  argumentam que  Monique merecia qualquer violência que poderia ter acontecido. Ninguém de fato quer ouvir Monique. Ela deve se conscientizar que é uma vítima ou uma vagaba e não pode ter mais alguma opinião sobre o caso. Muito menos devemos dar ouvidos a Daniel, pois este é um estuprador já condenado e linchado pela a opinião pública. Este episódio nos revela o quanto há de moralismo e racismo na discussão sobre gênero e violência no Brasil.

Soube neste momento que Daniel foi expulso do programa sem que se tivesse nenhum tipo de apuração legal sobre os fatos. Gente: essa é uma questão LEGAL e não um concurso de beleza. Se os fatos comprovarem que  Daniel, de fato, teve relações sexuais com Monique enquanto ela estava inconsciente, então ele é um estuprador e deve responder por seu crime. Se, uma vez que todos os dados estão apurados, não tiver evidência que um estupro aconteceu, então porque expulsá-lo do programa?

Continuo acreditando que este país  acredita em acusações de bruxaria e este fato é simplesmente assustador para uma nação que se diz democrática. Cadê as evidências? Ou vamos continuar vivendo num Brasil onde as emissoras de televisão determinam a culpa e a inocência? Não sei o que assusta mais: o fato da Rede Globo ter criado uma situação esdrúxula como entretenimento ou as pessoas acharem que essa situação pode e deve ser resolvida na base da histeria coletiva.

11 comments:

  1. Só algumas ressalvas no seu texto: A Globo e seu diretor, o Boninho, num primeiro momento nada ou quase se manifestou sobre o ocorrido até a noite de hoje (o fato ocorreu na noite de sábado para o domingo). Num primeiro momento a postura do diretor desse programa foi o de chamar a suposta vítima ao confessionário e perguntar pra ela o que aconteceu, ela dizendo que não se lembrava e que foi consensual apenas alguns beijos, é até onde ela se lembra. O próprio Boninho levantou a questão racial e não queria retirar o integrante do jogo. Os vídeos que rolaram pelo youtube na verdade foram postados por telespectadores que assistiam ao ppv na hora do ocorrido (esse de 7 minutos), sendo retirados pela Globo em seguida, mas óbvio que alguns continuam rolando por ae, o que foi passado no programa no domingo é que foi editado, mostrando menos de 1 minuto e não mostrando nenhuma cena que insinuasse sexo ou comportamento libidinoso.
    Não sou defensora da Globo e desses tipos de programas, mas fiquei sim indignada com o ocorrido. Mas dessa vez ao menos a emissora na verdade quis abafar ou diminuir a gravidade da situação. Tanto que o programa tentou "criar" uma história de amor entre os dois, lançou boatos de racismo e por fim, quando a polícia entrou no caso, ela teve que retirar o participante que está sendo alvo de inquérito. O que aconteceu de fato, somente depois das apurações é que vamos saber, mas por favor, as imagens, as conversas pós acontecido entre eles e tudo o mais, para mim deixam poucas dúvidas de que houve um abuso sim. A histeria coletiva, nesse caso, foi inevitável visto que se trata de um programa nacional, porém lançar dúvidas sobre isso usando o racismo, já é um pouco demais!!

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  2. [Thaddeus responde...]

    Acho justo a raiva direcionada contra O Globo. O que acho perigoso é a legião de telespectadores e internautas que chamam Daniel de estuprador baseado nos fatos acima citados. Se Boninho levantou ou não a questão racial não diminui, de jeito algum, o conteúdo racial do estereótipo do homem negro estuprador.

    Acho extremamente perigoso pensar que qualquer um de nós tem uma visão clara sobre o que aconteceu baseado nos poucos fatos e muitos boatos que voam por aí. Acusações sérias hão de serem sustentadas por evidências sérias e não por nossas reações vicerais contra uma emissora manipuladora e vil. Afinal das contas, se a acusação é de estupro, é o Daniel que vai responder, e não a Rede Globo. Portanto, a meu ver, o que Boninho falou ou não falou, o que o Globo fez ou não fez, tem exatamente zero peso na culpabilidade (ou não) de Daniel.

    O que me assusta é o fato de que, até agora, não tem acusação de crime algum mas, mesmo assim, tem gente achando legal chamar Daniel de estuprador - um estigma que ele vai carregar para o resto de sua vida.

    Não acho que a justiça se faz através do tribunal de opinião pública. Concordo com a Ana Paula que a nossa tendência cultural em acreditar em acusações de bruxaria não pode ser levada como substituto para provas duradouras, apresentadas num tribunal.

    Sabe que é sinistro, mesmo? O Globo tem cooptado até nossa classe intelectual nesse jogo sujo que eles chamam de BBB. Afinal das contas, a certeza de que houve um abuso, fundada em 7 minutos de vídeo e a análise das ações de Globo após do acontecido e a consequente estigmatização de um jovem negro de "estuprador" não é nada mais e nada menos do que a transbordamento do voto popular do BBB para nossa realidade jurídica e social.

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  3. Eu concordei com muito do texto e foi um dos mais lúcidos que li até agora, somente o que mais me incomodou foi a tentativa de dever isso a questão racial. Não acho que esse seja o melhor caminho. E sim, a Globo habilmente eximiu-se da sua culpa (visto que um programa como esses nada tem de real, é como se a Globo usasse as pessoas como fantoches e essas pessoas vendessem seus corpos para ela, deixando de serem donas de si mesmas e de suas atitudes)e a projetou unicamente para o participante.
    Como eu acompanhei todo o ocorrido, inclusive no ppv, que não existe, ou quase, edição, fiquei muito chocada com tudo isso. Embora parte de mim saiba que não tenho direito de culpar essa ou aquela pessoa, é muito difícil não formar uma opinião nesse caso, embora não caiba a mim e nem a opinião pública sentenciar o rapaz. O que mais me incomodou nessa situação foram os comentários de muitas pessoas que ainda defendem a máxima: Prendam suas galinhas pq meu galo está solto, e demais formas de machismo. Ok que quem entra ali, "vende sua alma" à Globo, mas será que tudo pode estar realmente a venda?

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  4. Cara, leia o que estes anônimos te falaram, vale a pena.

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  5. LIXO PURO LIXO, EU TBM NÃO PERCO TEMPODE DAR IBOPE PRA ESSAS IMUNDICIAS, E NÃO VEM DIZER QUE ELA E UMA COITADINHA E QUE NAO SE LEMBRE DE NADA, OLHA UMA MULHER Q SE PREZA NÃOPARTICIPA NUM ANTRO E ORGIA DE UM PROGRAMA DESSES Q SÓ A REDE GLOBO PROMOVE ALÉM DESSAS NOVELAS IMUNDAS.

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  6. [Thaddeus comenta...]

    O anônimo afirma ter assistido o show no PPV. Ou seja, está pagando dinheiro para assistir um espectáculo montado pela equipe de Rede Globo. Afirma, ingenuamente, que o que assistiu é a verdade, pois acha que não tem editação no PPV. Mas eu vi o vídeo e o que tem? Sete minutos de um ederdon mexendo: cena igualzinho aquilo que acontece EM TODOS os BBB. Temos visto esse mesmo ederdon mexendo quantas vezes, agora? E todo ano, seus movimentos provocam a mesma revolta nas pessoas.

    O Anônimo é tão ligado no espectáculo que nem percebeu que somente viu um ederdon mexendo: acha que viu um estupro. E o Anônimo nem cogita a possibilidade - altamente provável, a meu ver, dado tudo que sabemos sobre como esses shows funcionam - que toda essa trama foi combinada previamente, fora da alcance das câmeras.

    O Anônimo, enfim, parece comprar a ilusão que a Rede Globo vende. Acha que, de fato, está vendo a realidade quando assiste um "reality show". E mantenha-se ligado no programa: pague para o assistir no PPV, apesar de sua revolta com a situação.

    Gente, isto é a razão pq o Globo montou o espectáculo que vocês assistiram. O Globo não é político. Não precisa de sua aprovação e não tem que ganhar eleição alguma: é uma empressa de televisão é só precisa manter vocês ligados ao espectáculo. Qualquer emoção forte é suficiente para alcançar esse fim.

    A pergunta é "Será que tudo está realmente a venda?"

    Sim, Anônimo. Faz tempo. Tanto os homens quanto as mulheres, participantes do BBB, provavelmente vendiam bem mais do que seus sagrados orgão genitais para entrar no programa. Acho que a Monique não derramou uma lágrima sequer sobre o acontecido. Acho que ela está estática, pois agora vai ter um enorme voto simpatia em seu favor nos próximos paredões.

    Me assusta o fato que o Globo pode promover um espectáculo sórdido desses, mexendo com os estereótipos mais ridículos e básicos, e só pq colocu o rótulo "reality" no show, os telespectadores do Brasil inteiro estão levando a sério uma trama que teriam rejeitados como forçada se tivesse aparecida na telenovela das 8:00.

    Ou seja, porque empregar escritores se as pessoas vão engolir qualquer merda que passa na tela num reality show?

    Para com o artigo da Ana, acho que ela foi bem clara. Ela não está tentando "racializar" a questão. Ela está apontando o fato que esses espectáculos estão montados de acordo com códigos culturais que seguem várias linhas de diferenciação. Raça, gênero e classe são todos marcadores utilizados quando essas dramas são criadas para indicar mocinhos e bandídos. Devemos empregar uma ótica crítica e interseccional para analisar essas histórias e não simplesmente tentar reduzí-las para contos moralistas e simplistas através de uma análise que só emprega uma vertente crítica, o de gênero.

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  7. [Thaddeus comenta...]

    Caro Cowboy, acho o espectáculo do BBB forçado, montado e artificial. Me assusta o fato de que pessoas inteligentes acham aquilo "a realidade" só pq o Globo afirma que é. E concordo com você: o show é uma orgia do ridículo, criado especificamente para mexer com nossas emoções mais baixas e nada mais.

    Agora, não entendo pq sua raiva cai emcima de Monique por participar nesse espectáculo sordido. Só pq ela é mulher? TODOS os atores no show são prostitutos no pior sentido possível da palavra - e eu não uso essa palavra para indicar trabalhador sexual. Vender sexo, para eles, é de menos: estão vendendo a ilusão de vida e chamando isto de realidade.

    Acho que a mulher tem o direito de participar em quantas orgias que quiser e que isto não tem nada a ver com o fato dela "se prezar" ou não.

    O que me assusta é o fato de que tem gente que pagou dinheiro para assistir um orgia show e que agora estão revoltadas com o espectáculo promovido por seu dinheiro.

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  8. Gente, o vídeo não tem apenas 7 minutos. Mas sim cerca de uns 25. A moça deu uns amassos no cara debaixo do edredon e pediu para ele sair depois q o Rafa chegou, mas depois ele voltou e continuou com os amassos (só que desta vez sozinho, sem a reação da garota).

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  9. 'Tá. E pq você assistiu esse vídeo na santa telinha, você acha que não poderia ter sido editado ou combinado previamente, é isto?

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  10. [Tadeu comenta...]

    Previsão minha, para que todo mundo pode preparar suas reações de ultraje e credulidade: daqui a um mês, a Monique vai reportar para uma "amiga" da casa que sua menstruação está atrasada.

    Lembre-se "laranja" soa exatamente como "crédulo" se você enuncia as duas palavras lentamente.

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